POR QUE NÃO SOU PROTESTANTE
D.Estevão Bittencourt
São sete as razões principais pelas quais não sou protestante.
1. SOMENTE A BÍBLIA...
Os protestantes afirmam que seguem a Bíblia como norma de fé. Acontece, porém,
que a Bíblia utilizada por todos os protestantes é uma só; em português, vem
a ser a tradução de Ferreira de Almeida. Por que então não concordam entre
si no tocante a pontos importantes (ver nº 2 adiante)? E por que não
constituem uma só comunidade cristã, em vez de serem centenas e centenas de
denominações separadas (e até hostis) entre si?
- A razão disto é que, além da Bíblia, seguem outra fonte de fé e
disciplina... fonte esta que explica as divergências do Protestantismo.
Tal fonte, chamamo-la Tradição oral; é esta que dá vida e atualidade à
letra do texto. A tradição oral do Catolicismo começa com Cristo e os Apóstolos,
ao passo que as tradições orais dos protestantes começam com Lutero (1517),
Calvino (1541), Knox (11567), Wesley (1739), Joseph Smith (1830)...
Entre Cristo e os Apóstolos, de um lado, e os fundadores humanos das denominações
protestantes, do outro lado, não há como hesitar: só se pode optar pelos
ensinamentos de Cristo e dos Apóstolos, deixando de lado os
"profetas" posteriores.
Notemos que o próprio texto da Bíblia recomenda a Tradição oral, ou seja, a
Palavra de Deus que não foi consignada na Bíblia e que deve ser respeitada
como norma de fé. Os autores sagrados não tiveram, em vista expor todos os
ensinamentos de Jesus, como eles mesmos dizem:
"Há ainda muitas outras coisas que Jesus fez. Se elas fossem escritas, uma
por uma, penso que nem o mundo inteiro poderia conter os livros que se teriam de
escrever" (Jo 21,25, cf. 1 Ts 2,15).
"Muitos outros prodígios fez ainda Jesus na presença dos discípulos, os
quais não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para que
acrediteis que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a
vida em seu nome" (Jo 20,30s).
São Paulo, por sua vez, recomenda os ensinamentos que de viva voz nos foram
transmitidos por Jesus e passam de geração a geração no seio da Igreja, sem
estarem escritos na Bíblia:
"Sei em quem acreditei.. Toma por norma as sãs palavras que ouviste de mim
na fé e no amor do Cristo Jesus. Guarda o bom depósito com o auxílio do Espírito
Santo que habita em nós" (2Tm 1, 12-14).
Neste texto vê-se que o depósito é a doutrina que São Paulo fez ouvir a Timóteo,
e que Paulo, por sua vez, recebeu de Cristo. Tal é a linha pela qual passa o
depósito:
CRISTO---PAULO , TIMÓTEO
A linha continua... conforme 2Tm 2,2
O que ouviste de mim em presença de muitas testemunhas, confia-o a homens fiéis,
que sejam capazes de o ensinar ainda a outros".
Temos então a seguinte sucessão de portadores e transmissores da Palavra:
0 PAI
CRISTO
PAULO (OS APÓSTOLOS)
TIMÓTEO
(OS DISCÍPULOS IMEDIATOS DOS APÓSTOLOS)
OS FIÉIS
OUTROS FIÉIS
Desta forma a Escritura mesma atesta a existência de autênticas proposições
de Cristo a ser transmitidas por via meramente oral de geração a geração,
sem que os cristãos tenham o direito de as menosprezar ou retocar, A Igreja é
a guardiã fiel dessa Palavra de Deus oral e escrita.
Dirão: mas tudo o que é humano se deteriora e estraga. Por isto a Igreja deve
ter deteriorado e deturpado a palavra de Deus; quem garante que esta ficou
intata através de vinte séculos na Igreja Católica?
- Quem o garante é o próprio Cristo, que prometeu sua assistência infalível
a Pedro e as luzes do Espírito Santo a todos os seus Apóstolos ou à sua
Igreja; ver Mt 16, 16-18; Lc 22,31s; Jo 21,15-17; Jo 14, 26; 16,13-15.
Não teria sentido o sacrifício de Cristo na Cruz se a mensagem pregada por
Jesus fosse entregue ao léu ou às opiniões subjetivas dos homens, sem
garantia de fidelidade através dos séculos. Jesus não pode ter deixado de
instituir o magistério da sua Igreja com garantia de inerrância.
- algumas denominações batizam crianças; outras não as batizam;
2. CONTRADIÇÕES
0 fato de que não seguem somente a Bíblia, explica as contradições do
Protestantismo:
- algumas observam o domingo; outras, o sabado;
- algumas denominações batizam crianças; outras não as
batizam;
- algumas têm bispos; outras não os têm;
- algumas têm hierarquia; outras entregam o governo da comunidade à própria
congregação (congregacionalistas);
- algumas fazem cálculos precisos para definir a data do fim do mundo - o
que para elas é essencial. Outras não se preocupam com isto.
Vê-se assim que a Mensagem bíblica é relida e reinterpretada diversamente
pelos diversos fundadores dos ramos protestantes, que desta maneira dão origem
a tradições diferentes e decisivas.
Ademais, todos os protestantes dizem que a Bíblia contém 39 livros do Antigo
Testamento, e 27 do Novo Testamento, baseando-se não na Bíblia mesma (que não
define o seu catálogo), mas unicamente na Tradição oral dos judeus de Jâmnia
reunidos em Sínodo no ano 100 d.C.;
- todos os protestantes afirmam que tais livros são inspirados por Deus,
baseando-se não na Bíblia (que não o diz), mas unicamente na Tradição oral.
Onde está, pois, a coerência dos protestantes?
Pelo seu modo de proceder, afirmam o que negam com os lábios; reconhecem que a
Bíblia não basta como fonte de fé. É a Tradição oral que entrega e
credencia a Bíblia.
3. AFINAL A BIBLIA ... : SIM OU NÃO?
Há passagens da Bíblia que os fundadores do Protestantismo no século XVI não
aceitaram como tais; por isto são desviadas do seu destino original muito
evidente:
a) a Eucaristia... Jesus disse claramente: 1sto é o meu corpo" (Mt
26,26) e Isto é o meu sangue" (Mt 26,28). Em Jo 6,51 Jesus também afirma:
"O pão que eu darei, é a minha carne para a do mundo. "
Aos judeus que zombavam, o Senhor tornou a afirmar:
"Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do
Homem e não beberdes * seu sangue, Não tereis a vida em vós. Quem come minha
carne e bebe o meu sangue, tem a vida eterna eu o ressuscitarei no último dia.
Pois a minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue verdadeiramente
te uma bebida. "
Apesar disto, os protestantes não aceitam o sacramento do perdão e da
reconciliação!
(J o 21,17).
Se assim é, por que é que "os seguidores da Bíblia" não aceitam a
real presença de Cristo no pão e no vinho consagrados?
b) Jesus disse ao Apóstolo Pedro: "Tu és Pedro (Kepha) e sobre
esta Pedra (Kepha) edificarei a minha Igreja" (Mt 16,18).
Disse mais a Pedro: "Simão, Simão, ... eu roguei por ti, a fim de que tua
fé não desfaleça. E tu, voltando-te, confirma teus irmãos" (Lc 22,31
s).
Ainda a Pedro: "Apascenta as minhas ovelhas"
Apesar de tão explícitas palavras de Jesus, os protestantes não reconhecem o
primado de Pedro! Por que será?
c) Jesus entregou aos Apóstolos a faculdade de perdoar ou não perdoar
os pecados - o que supõe a confissão dos mesmos para que o ministro possa
discernir e agir em nome de Jesus:
"Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados,
ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem não os perdoardes, não serão
perdoados".
d) Jesus disse que edificaria a sua Igreja ("a minha Igreja",
Mt 16,18) sobre Pedro. - As denominações protestantes são constituídas sobre
Lutero, o Calvino, Knox, Wesley... Antes desses fundadores, que são dos séculos
XVI e seguintes, não existia o Luteranismo, o Calvinismo (presbiterianismo), o
Metodismo, o Mormonismo, o Adventismo... Entre Cristo e estas denominações há
um hiato... Somente a Igreja Católica remonta até Cristo.
e) 0 Apóstolo São Paulo, referindo-se ao seu elevado entendimento da
mensagem cristã, recomenda a vida una ou indivisa para homens e mulheres:
Dou um conselho como homem que, pela misericórdia . do Senhor, é digno de
confiança... 0 tempo se fez curto. Resta, pois, que aqueles que têm esposa,
sejam como se não a tivessem; aqueles que choram, como se não chorassem;
aqueles que se regozijam, como se não se regozijassem; aqueles que compram,
como se não possuíssem; aqueles que usam deste mundo, como se não usassem
plenamente. Pois passa a figura deste mundo. Eu quisera que estivésseis isentos
de preocupações. Quem não tem esposa, cuida das coisas do Senhor e do modo de
agradar ao Senhor. Quem tem esposa, cuida das coisas do mundo e do modo de
agradar à esposa, e fica dividido. Da mesma forma a mulher não casada e a
virgem cuidam das coisas do Senhor, a fim de serem santas de corpo e de espírito.
Mas a mulher casada cuida das coisas do mundo; procura como agradar ao
marido".
Ora os protestantes nunca citam tal texto quando se referem ao celibato e à
virgindade consagrada a Deus. É estranho, dado que eles querem em tudo seguir a
Bíblia.
4. ESFACELAMENTO
Jesus prometeu à sua Igreja que estaria com ela até o fim dos tempos (Mt
28,20); prometeu também aos Apóstolos o dom do Espírito Santo para que
aprofundassem a mensagem do Evangelho (cf. Jo 14,26; 16,13s). – Não obstante,
os protestantes se afastam da Igreja assim assistida por Cristo e pelo Espírito
Santo para fundar novas "Igrejas". São instituições meramente
humanas, que se vão dividindo, subdividindo e esfacelando cada vez mais;
empobrecida e pulverizam sempre mais a mensagem do Evangelho, reduzindo-a
- ora a sistema de curas (curandeirismo), milagre serviço ao homem (Casa da Bênção,
Igreja Socorrista, Ciência Cristã ... );
- ora a um retorno ao Antigo Testamento, com empalidecimento do Novo; assim os
ramos adventistas ... ;
- ora a um prelúdio de nova "revelação", que já não é cristã.
Tal é o caso dos Mórmons; tal é o caso das Testemunhas de Jeová, que negam a
Divindade de Cristo, a SS. Trindade e toda a concepção cristã de história.
5. DETERIORAÇÃO DA BíBLIA
0 fato de só quererem seguir a Bíblia (que na realidade é inseparável de
Tradição oral, que a berçou e a acompanha), tem como consequência o
subjetivismo dos intérpretes protestantes. Alguns entram pelos caminhos do
racionalismo e vêm a ser os mais ousados dilapidadores ou roedores das
Escrituras (tal é o caso de Bultmann, Marxsen, Harnack, Reimarus, Baur ... ).
Outros preferem adotar cegamente o sentido literal, sem o discernimento dos
expressionismos próprios dos antigos semitas - o que distorce, de outro modo, a
genuína mensagem bíblica.
Isto acontece, porque faltam ao Protestantismo os critérios da Tradição
("o que sempre, em toda a parte e por todos os fiéis foi
professado"), critérios estes que o magistério da Igreja, assistido pelo
Espírito Santo, propõe aos fiéis e estudiosos, a fim de que não se desviem
do reto entendimento do texto sagrado.
6. MAL-ENTENDIDOS
Quem lê um folheto protestante dirigido contra as práticas da Igreja Católica
(veneração, não adoração, das imagens, da Virgem Santíssima, celibato ...
), lamenta o baixo nível das argumentações: são imprecisas, vagas, ou mesmo
tendenciosas; afirmam gratuitamente sem provar as suas acusações; não raro
baseiam-se em premissas falsas, datas fictícias, anacronismos.
As dificuldades assim levantadas pelos protestantes dissipam-se desde que se
estudem com mais precisão a Bíblia e as antigas tradições do Cristianismo. Vê-se
então que as expressões da fé e do culto da Igreja Católica não são senão
o desabrochamento homogêneo das virtualidades do Evangelho; sob a ação do Espírito
Santo, o grão de mostarda trazido por Cristo à terra tornou-se grande árvore,
sem perder a sua identidade (cf. Mt 13,31 s); vida é desdobramento de
potencialidades homogêneo. Seria falso querer fazer disso um argumento contra a
autenticidade do Catolicismo. Está claro que houve e pode haver aberrações;
estas, porém, não são padrão para se julgar a índole própria do
Catolicismo.
A dificuldade básica no diálogo entre católicos e protestantes está nos critérios
da fé. Donde deve o cristão haurir as proposições da fé: da Bíblia só ou
da Bíblia e da Tradição oral?
Se alguém aceita a Bíblia dentro da Tradição oral, que lhe é anterior, a
berçou e a acompanha, não tem problema para aceitar tudo que a Palavra de Deus
ensina na Igreja Católica, à qual Cristo prometeu sua assistência infalível.
Mas, se o cristão não aceita a Palavra de Deus na sua totalidade oral e
escrita, ficando apenas com a escrita (Bíblia), já não tem critérios
objetivos para interpretar a Bíblia; cada qual dá à Escritura o sentido que
ele julga dever dar, e assim se vai diluindo e pervertendo cada vez mais a
Mensagem Revelada. A letra como tal é morta; é a Palavra viva que dá o
sentido adequado a um texto escrito.
7. MENOSPREZO DA IGREJA
Jesus fundou sua Igreja e a entregou a Pedro e seus sucessores. Sim; Ele disse
ao Apóstolo:
"Tu és Pedro e sobre essa pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do
Inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos céus,
e o que ligares na terra será ligado nos céus, e o que desligares na terra será
desligado nos céus" (Mt 16,18s).
Notemos: Jesus se refere à sua Igreja (Ele só tem uma Igreja) e Ele a entregou
a Pedro... A Pedro e a seus sucessores, pois Pedro é o fundamento visível
sobre essa pedra edificarei..."); ora, se o edifício deve ser para sempre
inabalável, o fundamento há de ser para sempre duradouro; esse fundamento sólido
não desapareceu com a morte de Pedro, mas se prolonga nos sucessores de Pedro,
os Papas.
Ora Lutero e seus discípulos desprezaram a Igreja fundada por Jesus, e fundaram
(como até hoje ainda fundam) suas "Igrejas". Em consequência, cada
"Igreja" protestante é uma sociedade meramente humana, que já não
tem a garantia da assistência infalível de Jesus e do Espírito Santo, porque
se separou do tronco original. A experiência mostra como essas
"Igrejas" se contradizem e ramificam em virtude de discórdias e
interpretações bíblicas pessoais dos seus fundadores; predomina aí o
"eu acho" dos homens ou de cada "profeta" de denominação
protestante.
Mas... as falhas humanas da Igreja não são empecilho para crer? – Em
resposta devemos dizer que o mistério básico do Cristianismo é o da Encarnação;
Deus assumiu a natureza humana, deixou-se desfigurar por açoites, escarros e
crucificação, mas desta maneira quis salvar os homens. Este mistério se
prolonga na Igreja, que São Paulo chama "o Corpo de Cristo" (CI 1,24;
1 Cor 12, 27). A Igreja é humana; por isto traz as marcas da fragilidade humana
de seus filhos, mas é também divina; é o Cristo prolongado; por isto os erros
dos homens da Igreja não conseguem destrui-Ia; são, antes, o sinal de que é
Deus 1 quem vive na Igreja e a sustenta
Numa palavra, o cristão há de dizer com São Paulo: "A Igreja é minha mãe"
(cf. G1 4, 26). Ao que São Cipriano de Cartago (t 258) fazia eco, dizendo:
"Não pode ter Deus por Pai quem não tem a Igreja por Mãe" (Sobre a
Unidade de Igreja, cap. 4).
CONCLUSÃO
A grande razão pela qual o Protestantismo se torna inaceitável ao cristão que
reflete, é o subjetivismo que o impregna visceralmente. A falta de referenciais
objetivos e seguros, garantidos pelo próprio Espírito Santo (cf. Jo 14,26;
16,13s), é o principal ponto fraco ou o calcanhar de Aquiles do Protestantismo.
Disto se segue a divisão do mesmo em centenas de denominações diversas, cada
qual com suas doutrinas e práticas, às vezes contraditórias ou mesmo hostis
entre si.
0 Protestantismo assim se afasta cada vez mais da Bíblia e das raízes do
Cristianismo (paradoxo!), levado pelo fervor subjetivo dos seus
"profetas", que apresentam um curandeirismo barato (por vezes, caro !)
ou um profetismo fantasioso ou ainda um retorno ao Antigo Testamento com
menosprezo do Novo.
Esta diluição do protestantismo e a perda dos valores típicos do Cristianismo
estão na lógica do principal fundador Martinho Lutero, que apregoava o livre
exame de Bíblia ou a leitura da Bíblia sob as luzes exclusivas da inspiração
subjetiva de cada crente; cada qual tira das Escrituras "o que bem lhe
parece ou lhe apraz"!